segunda-feira, 11 de agosto de 2014

CERCA DE 1% DA POPULAÇÃO PODE SER MAIS RICA DO QUE DECLARA

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A riqueza dos super ricos está subestimada, apontam pesquisas de economistas do BCE e do Banco Mundial

Infomoney - Levantamentos mostram que 1% da população global é, literalmente, rica de modo desmedido. Desta maneira, muitos países são privados de bilhões em receita fiscal e os dados sobre as mudanças na desigualdade mundial ficam mais obscuros.
De acordo com pesquisas realizadas pelo economista Philip Vermeulen, do Banco Central Europeu, e por Gabriel Zucman, da London School of Economics, a riqueza dos super ricos - escondida com refúgios tributários e omissão em questionários - está subestimada. O levantamento do Banco Mundial mostra que a correção dessas falhas nos dados de renda quase anula o progresso realizado entre 1988 e 2008 na redução da brecha entre os ricos e os pobres do mundo.
"Desconfiamos que cerca de 1% da população mundial é mais rica do que declara, porque havia certa deliberação em declarar dados inferiores aos reais", explicou Joseph Stiglitz, economista vencedor do prêmio Nobel. "Há uma noção crescente de que o nosso sistema é especulativo e injusto", completou.
O fracasso em obter uma melhor noção da quantidade real de riqueza e de renda significa que os economistas e os responsáveis pelas políticas econômicas não têm uma compreensão adequada do grau de disparidade, o que representa um obstáculo para lidar com a questão. Por exemplo, saber que os lucros e ativos estão mais concentrados poderia aumentar o apoio à mudança da estrutura tributária, afirmou Zucman.


"Sem uma ideia clara de como o mundo é, fica difícil definir quais serão os efeitos das políticas", afirmou Carter Price, matemático sênior do Centro para o Crescimento Equitativo em Washington. "Olhando de maneira retrospectiva é difícil avaliar quais foram os efeitos de uma política", acrescentou.
Zucman afirmou que os mais ricos entre os ricos dos Estados Unidos - o topo de 0,1% com uma fortuna líquida de pelo menos US$ 20 milhões - detinham 23,5% de toda a riqueza dos EUA em 2012, após somar as estimativas de quanto foi escondido em refúgios fiscais no exterior. O valor se compara à estimativa anterior de 21,5%.
Ele colabora com Thomas Piketty, autor do best-seller "O capital no século XXI", e com Emmanuel Saez, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, na tentativa de chegar a valores mais precisos dos registros tributários.
De acordo com Vermeulen, pesquisador do BCE, os dados de pesquisas sobre todos os ultrarricos também são incorretos, mascarados em parte por amostras pequenas. O 1% detinha entre 35% e 37% da riqueza em 2010, mais do que os 34% indicados na Pesquisa sobre as Finanças dos Consumidores realizada pela Reserva Federal dos EUA.
Ainda que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) já tivesse utilizado uma amostra maior dos ricos para tentar chegar a números mais exatos, Vermeulen reajustou os dados e complementou-os com as listas de bilionários do mundo da Forbes.
Stiglitz apontou que uma maior concentração de renda e riqueza no topo poderia explicar por que os gastos dos consumidores têm tido uma recuperação lenta da recessão que terminou em junho de 2009. "Alguns dos problemas no desempenho do sistema econômico estão relacionados com o verdadeiro grau de desigualdade, não com o grau de desigualdade medido", afirmou.
Desde que a baixa de 18 meses terminou, o índice Bloomberg Industries Mass Merchant, que inclui a Wal-Mart Stores e a Dollar General, subiu 80%, menos do que o ganho de 109% no índice Standard Poor's 500. As varejistas de bens de luxo prosperaram, como prova o aumento de 254% no índice Bloomberg Industries Global Luxury Goods Index, que inclui empresas como Coach, Hermès International e Prada Spa.
Jeffrey Hollender, que está incluído neste 1% mais rico dos Estados Unidos, disse que não é surpreendente que os mais ricos do mundo tenham mais do que é estimado atualmente. "Quanto mais dinheiro você tiver, mais fácil será esconder isso e esquivar os impostos", explicou um dos fundadores da empresa de produtos de limpeza e cuidados pessoas Seventh Generation.
Zucman destacou que a medição de ativos dos superricos da Europa pode ser ainda mais mascarada. Cerca de 10% de suas fortunas estão em contas no exterior, em comparação com 4% dos EUA. As pessoas muito ricas também poderiam ter fortunas em fundações e companhias controladoras, o que dificulta os cálculos.
Para Vermeulen, as pesquisas europeias fazem menos do que as dos EUA para compensar os desvios de amostragem e podem ser ainda menos exatas. Por exemplo, o 1% da Áustria detinha até 36% da riqueza desse país em 2013, conforme os ajustes com os dados da Forbes. Isso equivale a 13 pontos porcentuais a mais do que a estimativa de uma pesquisa indica, o que poderia mostrar que a Áustria é tão desigual quanto os EUA.
Não compreender quanta renda e riqueza as pessoas mais ricas do mundo detêm significa que elas estão pagando menos impostos. A fortuna financeira mantida no exterior custa ao governo dos EUA US$ 36 bilhões em receita anual do não pagamento de impostos de renda, investimento, herança e propriedade, de acordo com o artigo de Zucman. A cifra bastaria para pagar o almoço de todos os alunos das escolas públicas de Nova York durante mais de um século. A Europa está perdendo cerca de US$ 75 bilhões.
"Há implicações potenciais para a política tributária", disse Zucman. "Se as desigualdades forem maiores do que pensávamos, talvez isso possa modificar perspectivas sobre o quanto as taxas de impostos marginais deveriam aumentar sobre as rendas mais altas, ou sobre em que medida deveríamos adotar outras ferramentas, como um imposto sobre a riqueza", acrescentou.
A economia mundial realizou alguns dos maiores avanços na globalização entre a queda do Muro de Berlim e o início da última recessão, o que fez com que os padrões de vida melhorassem para milhões de pessoas, inclusive na China e na Índia. O Banco Mundial analisou esse período e descobriu que muito pouco progresso realmente ocorreu na redução da desigualdade global, depois de fazer os ajustes dos registros de riqueza possivelmente inferiores aos reais.
De acordo com ajustes preliminares realizados pelos economistas Christoph Lakner e Branko Milanovic, ao contrário das cifras não ajustadas, que mostram uma queda da desigualdade, o coeficiente Gini do Banco Mundial, que mede a extensão da desigualdade de renda, quase não se moveu durante essas décadas.
Os números do Banco Mundial sinalizam que a quantidade de pessoas vivendo com menos de US$ 1,25 por dia caiu de 1,91 bilhão em 1990 para 1,22 bilhão em 2010 após ajuste por inflação. Se as brechas de renda não tiverem diminuído em todo o mundo, apesar da queda da população empobrecida, isso poderia "realmente mudar o modo em que os economistas veem os últimos 30 anos", afirmou Lawrence Mishel, presidente do Economic Policy Institute.
Segundo Tyler Cowen, professor de Economia na Universidade George Mason, se concentrar no 1% mais rico ao analisar a renda é uma perspectiva enganosa. É possível que não importe muito se pessoas como Bill Gates, um dos fundadores da Microsoft, estiverem embolsando uma porção maior de renda, desde que a condição dos pobres esteja melhorando no processo. "As pessoas se preocupam demais com o 1 por cento mais rico; a verdadeira questão é se há oportunidade para todos os outros. A desigualdade diminuiu em um modo significativo", explicou Cowen.
No entanto, Dal LaMagna, CEO da Ice Stone, se preocupa com a concentração no topo e a pouca compreensão da magnitude da desigualdade. "Para as pessoas ricas do Central Park West ou da Quinta Avenida não é bom ter tanto dinheiro e que todo mundo as odeie", afirmou LaMagna.

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